Por que muitos tímidos tornam-se retraídos

Tímido sem amor próprio cede mais facilmente à pressão para viver como se fosse um extrovertido e está mais suscetível a sofrer depressão e a isolar-se socialmente



O tímido é naturalmente introvertido, mas não é essencialmente inibido
Tímidos genuínos sentem-se confortáveis com a própria introversão: um temperamento que satisfaz suas necessidades individuais e torna-o capaz de estabelecer relacionamentos interpessoais sadios. Além disso, produz um bem-estar propício para externar seus anseios. A energia criativa relacionada à habilidade artística e literária é fruto desse ambiente interno em que os introvertidos liberam sua espontaneidade. 

Logo – ao contrário da natural introversão –, a inibição é apreendida. Embora os tímidos sejam quietos, tal característica não configura medo nem vergonha. Esses sentimentos, entretanto, podem ser suscitados diante das imposições externas para reprimirem-se e assimilarem elementos do comportamento dominante, isto é, agirem como extrovertidos.

Se o tímido ceder às pressões, passará por um doloroso processo iniciado com a autonegação. Em seguida, tentará interpretar o personagem oposto ao da sua realidade. Finalmente, sentirá frustração, pois é um papel que ele não tem condições temperamentais para encenar. Caso não se nutra de amor próprio, será acometido por depressão e tenderá a isolar-se socialmente. 

A partir daí, o tímido, anteriormente de bem consigo mesmo, transformar-se-á em um retraído, vitimado pelo “Ideal da Extroversão”. Quem não compreende a situação, “diagnosticará” o quadro como “sintoma” da timidez. E, em vez de oferecer solidariedade e carinho, intensificará o julgamento: “Está vendo? Todo tímido é assim, acanhado, envergonhado, recluso.” 

O psicanalista Donald Winnicott (citado por Anthony Storr em Solidão, a Conexão com o Eu) conceitua essa espécie de retraimento como “uma organização defensiva que implica uma expectativa de perseguição.” Ou seja, o introvertido sofre as consequências psicoemocionais da incompreensão e da ansiedade: vive em alerta constante para proteger-se do próximo ato de discriminação. (Texto de Valdeir Almeida).



Este texto integra a série de postagens Desmistificandoa timidez

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