Desmistificando a timidez como um mal a ser vencido


Os tímidos destacam-se por diversas razões. Possuem sensibilidade aflorada. São bastante disciplinados e focados. Desenvolvem amizades profundas em virtude de sua sincera disponibilidade para escutar. Eis alguns dos muitos exemplos que constituem os tímidos como sujeitos. Contudo, são apenas lembrados devido à sua maior inclinação à introspecção.

Partindo-se desse recorte, convencionou-se classificar de lesiva a timidez em sua totalidade. Por ser lesiva, prejudicaria o “indivíduo portador”. Assim, dela deveria curar-se. E por cura compreende-se agir como um extrovertido, falar como um extrovertido, ser um extrovertido. Ou seja, pretende-se anular uma subjetividade legítima a fim de normatizar um comportamento considerado unicamente adequado e viável.

Essa violação é fruto do senso comum, o qual construiu ideias equivocadas a respeito do tema. Associa o silêncio, por exemplo, à angústia. Interpreta a introspecção como sinônimo de insegurança. E acredita que a timidez conduz ao fracasso profissional.

O agravante é quando o sujeito desprovido de amor-próprio acolhe tais estereótipos. Despende energia tentando tornar-se a imagem do pensamento dominante. Como, obviamente, é um lugar inalcançável para ele, recolhe-se ao isolamento e padece de tristezas profundas. Um “prato cheio” para o senso comum, que vê nisso uma confirmação: “Está vendo? Todo tímido é recluso e deprimido”.

O senso comum não admite quebra de paradigmas. Desqualifica os argumentos de quem questiona os modelos vigentes. Assim, lança mão de frases feitas e pensamentos pré-moldados cujas origens jamais se prontificou a investigar. Conforme o psicólogo Rossandro Klingey, “um terço da humanidade é introvertida e dois terços é extrovertida. Como a maioria é extrovertida, temos a sensação de que quem é introvertido tem problema, o que não é (são personalidades introvertidas)”. Logo, o discurso instaurado pelos leigos diagnostica o falso problema e aponta a solução. O problema: ser tímido ou introvertido. A solução: ser igual “a mim”, extrovertido.

Para a francesa Marie-France Muller, doutora em psicologia, a timidez não é qualidade nem defeito. Portanto, os 40% dos franceses que se autodeclaram tímidos não são doentes, simplesmente estão mais propensos à natural introspecção.

De fato, inexiste comprovação científica a respeito do assunto. Ele não figura na lista dos principais distúrbios psiquiátricos. A psiquiatra infantil Rim Roudis (citando Jerome Kagan, da Universidade de Harvad), é categórica ao afirmar que pesquisas nunca foram capazes de apontar a existência do “gene da timidez”. 

Apesar disso, as pessoas presas à própria ignorância persistem: “Mas eles são tão retraídos, não são? Ou vai querer negar?”.

Como dito anteriormente, o acanhamento é mais presente nos tímidos. O advérbio mais indica que qualquer indivíduo é suscetível a esse estado. Imaginemos um piadista de bar familiarizado com sua plateia reduzida. Qual sua reação se fosse, sem prévio aviso, exposto a um numeroso auditório de físicos cientistas desprovidos de humor? Se não domina a matéria, “corará de vergonha”, possivelmente suará frio; o nervosismo afetará sua linguagem, o branco será inevitável.

O extrovertido, personagem acima (comum por sinal), não teve um momento de timidez, como erroneamente se costuma dizer. Simplesmente submeteu-se a um natural momento de vergonha, acionado pela exposição a um ambiente desconhecido.

Compreensão e respeito. Duas palavras cujas práticas contribuiriam para evitar a discriminação contra indivíduos que vivenciam outras realidades. A diversidade compõe a sociedade. Nela figuram os tímidos, para os quais não deve ser imposta a imagem do extrovertido como parâmetro. (Texto de Valdeir Almeida. Respeite os Direitos Autorais


Este artigo inaugura a série Desmistificando a Timidez. Originalmente, o conteúdo foi concebido sob a forma de texto único. Como resultaria numa postagem extensa, optei por desmembrá-la em outros posts, mas sem quebrar a unidade temática.

Um comentário:

  1. Val, excelente texto. Elucidador, bem construído e exemplificado. Gostei da observação quando se exige do tímido uma mudança, é o mesmo que "anular uma subjetividade legítima a fim de normatizar um comportamento". E o curioso foi me olhar no espelho do texto. Percebi: não sou tímido, mas sou bem introspectivo. Engraçado como a subjetividade humana é complexa (e que bom!). Abraços e parabéns pela escrita!

    ResponderExcluir

Tecnologia do Blogger.