O Crime do Professor de Português


Numa calçada suja, uma ventania repentina levou um pedaço de papel ao professor que passava, agitado. Ele esboçou devolvê-lo ao chão, mas paralisou-se diante da curiosidade para conferir o conteúdo:

“Me socorra po favo”

Leu assim mesmo, seco, cru. No entanto, depois, sucumbiu-se à indignação. Nauseabundo, pôs a mão do papel no peito e a outra no poste elétrico.

Folgou a gravata, olhou de um lado a outro, aventando auxílio médico. Após respirar profundamente, recompôs-se, dizendo de si para si:

 Maus ventos! Por que não me trouxeram um excerto de Camões, quiçá de Machado ou de Saramago?

Em pé, apoiando aquela espécie de bilhete no poste, procedeu à análise breve, fria e definitiva:

 Próclise em início de período. Supressão da letra r no final das duas últimas palavras. Ausência de pontuação. Garranchos horripilantes, embora compreensíveis. Zero com louvor!

E, de fato, desenhou um zero avermelhado que ocupou todo o espaço do bilhete. Sentindo-se ter retirado um peso malcheiroso das costas, amassou o papel e arremessou-o ao vento. Caiu o bilhete sobre um homem convalescente, sentado ao lado do poste: um sujeito quase oculto, cujas forças eram suficientes apenas para estender as mãos clementes. (Texto de Valdeir Almeida. Respeite os Direitos Autorais).

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