28 de outubro de 2011

O Verdadeiro Significado do Perdão

Existe uma distorcida ampliação do conceito de perdão defendida por alguns grupos de hipócritas. Para eles, perdoar significa retornar à relação que existia antes do ato motivador. Desse modo, se, por exemplo, o marido agrediu a esposa e ela separou-se dele, é porque não o teria perdoado.

Portanto, conforme essa teoria, o perdão opera-se externamente: é preciso demonstrações visuais para testificar publicamente que ele ocorreu. Por causa disso, o ofendido torna-se duplamente vítima: sofre as consequências da pessoa que perpetrou um mal específico contra ele e padece de perseguição dos algozes baluartes, que hostilizam quem não se torna íntimo novamente de quem pede perdão.

Na verdade, apenas dois personagens deveriam atuar nesse “enredo”: o ofensor e o ofendido. No entanto, como se viu anteriormente, há uma plateia enxerida que costuma dar opiniões não autorizadas e, até mesmo, interferir no desfecho da trama. Em tese, o ofensor é o antagonista. Entretanto, quando o ofendido – a verdadeira vítima – se cala diante da solicitação de perdão, os espectadores hostilizam-no, transformando-o num vilão.

Por seu turno, o ofensor, num descabido processo de vitimização, é sagrado o mocinho e pobre coitado. Assim, em virtude dessa cruel e injusta inversão de papéis, o tema da história é desviado, o foco deixa de ser a maldade praticada por um personagem (e todas as implicações negativas de tal prática) para estar em quem se omitiu perante o pedido. Tramas com esse enredo incoerente são comuns em determinados ambientes religiosos nos quais o oferecimento da outra face é levado ao pé da letra (“literalismo suicida”).

É necessário respeitar também as pessoas que não pretendem oferecer perdão. Elas, não raramente, são pautas das conversas de “amigos” que parecem não se ocupar da própria vida. Eles comportam-se como gente prestativa e costumam alertar: “Olha, a falta de perdão ocasiona diversos males, como taquicardia, insônia e até mesmo doenças crônicas gravíssimas”.

Isso é um fato, ó Conselheiros de Meia Tigela, mas utilizem-se desse talento de interferir na privacidade alheia para mostrar aos indivíduos maquiavélicos que eles causam infortúnios muito maiores às suas vítimas. Dessa maneira, vocês estariam desenvolvendo um “trabalho” preventivo: evitaria tanto os males fiscos e emocionais da falta de perdão quanto os resultados práticos devastadores das ações perpetradas por tais energúmenos. Mas essa sugestão é descabida, não é? Afinal, o que vocês querem, de fato, é assistir ao circo pegar fogo e ver os palhaços se agonizarem.

O não-retorno ao relacionamento revela muito mais do que uma quebra de confiança: representa a necessidade de proteger-se. Avente essa suposição: seu melhor amigo frequentou sua casa durante anos e, praticamente, fazia parte da sua família. Um dia, sua filha é abusada sexualmente por essa pessoa que você tanto estimava. E então, você colocaria em risco sua filha novamente apenas para justificar publicamente que perdoou o calhorda? Abriria novamente a porta para ele?

O sentido autêntico do perdão tem de ser respeitado. Existem grupos farisaicos que julgam – e “condenam” – mais a pessoa que não perdoa o assassino do irmão dela do que o próprio assassino (incoerência desmedida). E que tratam com crueldade a vítima que não retorna a relacionar-se com o ofensor. Ora, o ato de perdoar é inegociável, espontâneo e individual. É necessário que ele ocorra não porque o ofensor implorou, mas porque o ofendido sentiu-se verdadeiramente, e no tempo apropriado, que deveria fazê-lo.  (Texto de Valdeir Almeida)

Imagem: stock.xchng

13 comentários

♫ ♪ Wilson Miguel ♫ ♪ 28 de outubro de 2011 04:08  

Meu amigo ,

Naquele dia conversamos sobre esse assunto.

Como te falei, perdoar não é colocar o inimigo no colo...
é seguir em frente sem mágoas e poder viver sem recordações de algo que nos causou tanto mal. O momento de perdoar cabe a cada um de nós, ninguém pode nos impor que perdoemos alguém. Não podem nos julgar, porque não oferecemos o perdão nas praças públicas se passando por bom cristão. Longe dessa hipocrisia toda não é mesmo, meu amigo?


Falar de perdão é polêmico rs rs não vai ter espaço aqui se eu for falar tudo que estou pensando...rsrs

Deixo meu abraço e tenha um excelente final de semana.

Não vai sumir, ok?

Aclim 28 de outubro de 2011 09:58  

É o que digo, perdoaria o "morre diabo" mas não viveria com ele...rs

Perdoar não é fácil, temos que orar e pedir ajuda ao Senhor,mas é necessário perdoar, caso contrário o Senhor Jesus não nos perdoaria também.

Quanto continuar a ser ofendido e humilhado pelo agressor não tem necessidade, segundo o apóstolo Paulo: _"Se possível for tendes paz com todos", alguns não dá mesmo.

Abraço

Élys 28 de outubro de 2011 14:40  

Perdoar ou não perdoar. Parece, um jogo de palavras, mas é sim uma atitude que deve ser tomada naturalmente, quando a mágoa não esteja mais causando dor e assim seguir em frente sem pensar mais no fato sucedido.

Mary Miranda 28 de outubro de 2011 16:51  

Valdeir, querido, eis-me aqui, estupefata!

Parece que você roubou as palavras de meu pensamento (não vou te perdoar por isso! rs), no tocante ao "perdão social".
Quando demonstramos em público algo que o coração não compactua, estamos caindo na execrável hipocrisia, porque perdoar, todos sabemos , "é sagrado e bíblico".
Mas quando o tempo, o Senhor da Sabedoria, ainda não chegou para aquele coração que ainda tem mágoas, que não conseguiu digerir toda a maldade que o seu "opositor" lhe forneceu de maneira pútrida e licenciosa?
Olha a sabedoria popular: "É preciso dar tempo ao tempo!", no que plenamente concordo.
Para aquele que cometeu falhas hediondas, é necessário que ele me mesmo se perdoe (Lembra? Se perdoar, mas não continuar com o mesmo procedimento errôneo)e mostrar com atos, ser merecedor daquele perdão da "vítima", que precisa se assegurar da veracidade do outro.
Sabemos que há pessoas que jamais perdoaram o outro, é triste para quem se consertou de verdade, mas era o tempo dela, talvez as atitudes do "maldoso" não tivesse sido tão convincentes; quem está dentro do coração alheio?
Infelizmente, amigo, o que mais se vê é a inversão do jogo: a vítima se torna o "cruel", e o "cruel" arrependido, a doce e indefesa vítima...
Adorei a pasagem quando você diz sobre os "maigos" que comentam sobre aqueles que não aceitaram o pedido de desculpas, como se fossem esses mesquinhos e impiedosos.
Só quem sabe a dor de um calo pisado, é aquele que teve o seu calo pisado, ou seja, nenhuma dor é igual a nenhuma outra, e é só a entendemos quando por ela passamos...

Muito forte e consistente seu artigo, Valdeir!
Li e reli para poder comentar coerentemente; um primor de texto!

Grande beijo e quero muito que outros tenham como eu, a belíssima oportunidade de ler tamanha veracidade em tudo o que escreveu!

Mary:)

Meri Pellens 29 de outubro de 2011 15:46  

Que bom encontrar alguém que pensa como eu a respeito do perdão. Para mim é isso mesmo, é seguir a vida sem rancor e sede de vingança. Mas não abdicar da justiça, isto é, do direito de defender a própria vida e da sociedade, e até mesmo exigir uma atitude concreta afim de amenizar o mal feito. Um marido que agride não pode ser tolerado "em nome do perdão". Isso não é perdão, é falta de respeito e amor por si mesmo. Somos livres em nossas escolhas, mas cada uma traz consequências e cada um deve aguentar as suas, mesmo porque esse é o processo para o ser humano amadurecer e evoluir, ninguém pode fugir disso, pois é uma lei natural.
Abraço e muita paz.

PS: Obrigada por ler e comentar na entrevista, viu?

Weslley Almeida 29 de outubro de 2011 17:40  

Perdoar deve ser um ato volitivo. Sem pressões morais ou religiosas. Pois do contrário, não é de coração - sem validade: falso.
Os exemplos listados por você, Val, elucida alguns casos de perdão que não implicam necessariamente em conviver da mesma forma com a outra pessoa. Tira-se a mágoa do coração; nenhum sentimento ruim nutre-se mais pela pessoa que cometeu o ato, mas - até mesmo pelas limitações alheias e aprendizagem com a experiência - não deve-se mais confiar.
No entanto, sou da opinião também de que o perdão pode gerar o re-acolhimento total. Aceitando a pessoa da mesma forma que antes. Se - de fato - houver arrependimento e superação da outra parte em relação ao que cometeu.
Abração!

José S. Pereira 29 de outubro de 2011 18:42  

Amigo, o maior problema ainda é que a turma do perdão frequentemente "joga na cara" do perdoado o benefício que lhe proporcionou ao perdoa-lo. Enfim, perdão nada. Apenas mais uma arma guardada para ser utilizada no momento certo. Para ferir profundamente.

Sempre tive comigo que não vivo do perdão alheio. Como o mundo não precisa de meu perdão.

Alguém me fere? Aguente as consequências, uai. Declaro-o meu inimigo e, naquele momento, a morte é pouco para essa pessoa (ah, sim, todos nós temos um enorme cemitério escondidinho em nossa mente).

Claro, não mato ninguém. Nem planejo. Mas se torna inimigo sim. E quando for neutralizado, ou seja, não tiver mais nenhuma possibilidade de me "fazer mal", descarto-o. Ou seja, mato-o em minha mente.

Se vai se regenerar, se vai tomar jeito na vida, boa sorte. Que haja direito com as pessoas que vir a conhecer. Comigo, não terá essa oportunidade.

Excessões? Em família, talvez. Mas não volta a situação anterior. O encanto se quebra. A confiança se vai. O distanciamento é inevitável. Na vida, conheço três tipos de pessoas: as que me fariam dar a própria vida pelo seu bem (conta-se nos dedos), as com quem me preocuparia e tentaria, comovido, ajudar. E o último grupo, em que não sentiria absolutamente nada pela agonia destas. Nem comoção, pena ou vontade de socorrer. Mas também nem triunfo, nem bem-estar, nem alegria. São pessoas mortas para a minha vida. Nem me dizem nada.

Abraços

mfc 30 de outubro de 2011 13:27  

Admirei esta visão alternativa do perdão.
Um tema excelente que me deu que pensar!
Um abraço.

Dhiego Borges 2 de novembro de 2011 02:24  

Ja vi isso ocorrer na minha familia mesmo. Infelismente quando eu fui ter acesso a historia todo o estrago ja tinha sido feito. Acredito que cada um sabe onde o sapato aperta, é claro que não é bom alimentarmos sentimentos ruins como rancor mas entendo que nem sempre isso esta sobre nosso controle. Vai de cada um saber lidar com suas proprias necessidades emocionais. Eu fui dar uma olhada no meu blog e vi que vc me adicionou denovo kkkkkkkk obrigado
Um otimo feirado pra voce

Eloah 4 de novembro de 2011 06:36  

O perdão vem de dentro, além das aparências.O que torna bem mais difícil porque envolve uma gama de sentimentos.Valeu pela reflexão amigo!Bom fim de semana.Forte abraço Eloah

Orvalho do Céu 4 de novembro de 2011 07:52  

Olá,
O perdão não significa esquecimento...
Sempre Deus dá a graça...
Abraços fraternos de paz

Luma Rosa 8 de novembro de 2011 00:51  

Associam perdão com bondade, mas nem sempre! A minha visão é de que seja algo sublime. A minha sorte é que nunca precisei perdoar ninguém; é muita responsabilidade julgar.

Valdeir, como mestre venho lhe fazer um convite!

Hoje acontece a 3ª Edição do BookCrossing Blogueiro e nessa postagem faço a chamada. Gostaria de contar com a sua presença e/ou divulgação.

Está dado o pontapé para a blogagem e você poderá participar quando quiser! No blogue explico porque a chamada ficou para a última hora.

Boa semana!
Beijus,

Djoni Filho 22 de dezembro de 2011 11:33  

Temos que entender que perdoar não é o mesmo que esquecer. Se alguém mata o filho de outrem, por exemplo, é muito difícil perdoar, mas é possível. Perdoou, mas nunca vai esquecer, pois o perdão não traz o filho de volta. Nem se tornará amigo, pois amizade requer confiança e respeito, e nunca se poderia confiar e respeitar em alguém que matou o seu filho.

Abraços

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Confira: Blogueiros Formigas
http://divulgandoedebatendo.blogspot.com/2011/12/blogueiros-formigas.html

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