24 de outubro de 2008

A Novelização do Caso Eloá

As telenovelas não conseguem mais prender a atenção do telespectador. Mas, durante os últimos dias, as emissoras têm conseguido uma maneira infeliz de contornar a situação: a “novelização” do seqüestro em Santo André.

A vida real encarregou-se de arquitetar a história nua e crua. A televisão – especializada em ilusões – deu o tom, mediante a trilha sonora, as vozes forçadamente emotivas de alguns jornalistas e as edições semelhantes às de uma telenovela.



Entretanto, a maior parte da similaridade entre as tramas novelísticas e o caso do seqüestro no ABC paulista foi produzida, de fato, pela vida real. Observa-se isso, sobretudo, no modo como a trama se desenrola. Nas novelas de TV, há sempre uma trama central e várias subtramas que se desenvolvem a partir da história principal. É isso que está acontecendo, agora, com o caso Eloá. Veja:


A protagonista:

A personagem principal é Eloá: mocinha e heroína da história. O Brasil parou diante da teleinha para acompanhar cada capítulo da saga da garota, que, além de muito bonita, era carismática. Eis aí um prato cheio para que a audiência das emissoras fosse às alturas.


O vilão:

Como ocorre nos folhetins televisivos, o vilão Lindemberg foi (e ainda é) odiado pelo Brasil inteiro. Não há ninguém que tenha outro sentimento por ele, um cruel assassino.

Nenhum autor de novelas da TV teve uma imaginação tão fértil a ponto de inventar um personagem desta estirpe. Ou será que foram a decência diante do público e o próprio sentimento humano que impediram os escritores de não criarem um Lindemberg na televisão?

Mas a vida real produziu o asqueroso personagem, que fez os telespectadores terem sentimentos polarizados: ódio extremo por ele e grande amor por Eloá.


A amiga:

Naqueles capítulos de horror, sem um mocinho para socorrer a protagonista, a também heroína Nayara entra em ação.

Muito se falou sobre o destemor de Nayara. Certamente, teses serão defendidas a respeito dela, no âmbito jurídico, psicológico e filosófico. Dirão: a polícia errou ao escolher uma menina de apenas 15 anos como mediadora. Outros afirmarão: ela é adolescente; a noção de perigo parece não existir em pessoas dessa idade. Alguns ainda falarão: Nayara conseguiu equilibrar emoção e razão.

Mas tudo o que se discorrer a respeito dessa bonita e carismática garota serão teorias. O melhor é contemplar a beleza da coragem que uma amizade verdadeira proporciona.

Os três personagens citados acima participaram do enredo que teve trágico desfecho na semana passada. Desfecho? A história ainda não acabou. Agora, é a vez das subtramas:


O núcleo policial :

Os policiais, personagens fundamentais da trama, serão ouvidos e, certamente, processados. Eis aqui um caso de injustiça, como ocorre em toda novela. Injustiça, porque eles estavam sob ordens de um superior. De fato, houve erros durante as negociações com o vilão, mas não se devem eleger bodes expiatórios nesse momento.

Além disso, quem matou Eloá não foram os militares, mas, sim, Lindemberg. Parte da imprensa, ao que parece, quer dividir a culpa do assassino.


O pai do vilão:

O pai de Lindemberg representa o núcleo da coincidência na história. Ele estava na Paraíba – onde mora – assistindo ao seqüestro. De repente, reconheceu o filho, que não via há duas décadas. Era Lindemberg: aos dois anos, partiu com a mãe. Agora, homem feito, bandido, assassino.


O pai de Eloá – revelações de uma vida pregressa:

Faz parte do enredo de uma telenovela convencional: um personagem sai de sua terra natal para viver em outra cidade, muito longe. Na nova localidade, troca de identidade, faz cirurgia plástica.
O pai da heroína não chegou ao extremo de modificar o rosto, mas cometeu o crime de mudar de nome. Contra ele, pesam denúncias de outros crimes no Estado de Alagoas.

Foi reconhecido quando atuava na trama central. Em outras palavras, ele passou mal, ao ver a filha sendo ameaçada com uma arma de fogo. A TV o filmou (como filmava tudo ali – Projac Paulistano). Alguém, de Alagoas, ao vê-lo na tela, o reconheceu. Vejam só que ironia; até aqui a TV ajuda a produzir histórias


E a vida continua... Menos a de Eloá.

2 comentários

Regi 27 de outubro de 2008 19:31  

Olá amigo
Desculpe por não vir muito aqui no seu cantinho!
Estou com alguns; Logo contarei tudo no meu blog...
Um forte abraço... até mais... Se Deus quiser...

Henrique 29 de março de 2010 20:44  

Incrível...

Basta levantar os olhos para realmente entender como tudo acontece na TV, pena que poucos de nós conseguirão contemplar tudo isso com essa plenitude.

Parabéns! Continue sempre escrevendo, para o bem.

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