31 de agosto de 2010

A Culpa é do Diabo


Deixou a porta de casa aberta, foi assaltado. Deu desfalque na empresa, foi demitido. Transou sem camisinha, contraiu doença venérea. Avançou o sinal vermelho, foi multado e acumulou pontos na carteira. Caluniou o amigo, perdeu uma grande amizade e será processado por difamação.

À noite – como faz diariamente – foi à igreja. Ajoelhou-se. Durante a oração, disse que o ladrão, o patrão, a mulher desconhecida, o guarda de trânsito e o amigo querido foram usados pelo Diabo. Por isso, perdeu dinheiro, emprego, saúde e amizade.

Um pouco mais aliviado, levantou-se. Sentou no banco. Assistiu ao ritual religioso. Depois, voltou para casa. Dormiu tranquilamente, afinal precisava descansar para enfrentar as hostes malignas do dia seguinte.




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28 de agosto de 2010

Nostalgia: saudade do inexistente


Há uma acepção não-dicionarizada da palavra nostalgia: “sentir falta de algo que nunca existiu”. Ao contrário do que possa parecer, esse conceito não é paradoxal.


Por exemplo, os homens das cavernas experimentavam o frio. Tinham, por isso, necessidade de alguma coisa (que até então não existia) para aquecê-los: o fogo.

Houve também o momento em que os ser humano via como limitada a linguagem mediante sinais e desenhos. Ele precisava de algo (ainda inexistente) que sistematizasse seu pensamento e tornasse a comunicação mais expressiva: a palavra.

Conforme esse conceito de nostalgia, a maneira de sentir falta de alguma coisa é experimentar aquilo que provoca o sentimento de ausência. Por exemplo, só temos consciência do silêncio, porque o som é uma realidade concreta. Se desde o nascimento, vivêssemos num ambiente em que só fossem produzidos sons, teríamos necessidade do silêncio, embora não soubéssemos que nome dar a ele.

Possivelmente, era isso que Lulu Santos quis dizer ao compor a música Certas Coisas:


Não existiria som se não
Houvesse o silêncio
Não haveria luz se não
Fosse a escuridão
.....................................

Eu te amo calado
Como quem ouve uma sinfonia
De silêncio e de luz
Nós somos medo e desejo
Somos feitos de silêncio e som
Tem certas coisas que
eu não sei dizer


A vida, portanto, é uma incessante busca por algo que temos consciência de que nos faz uma enorme falta. Entretanto, tal consciência não nos mostra que coisa é essa. Isso provoca uma certa angústia, denominada nostalgia. (Texto de Valdeir Almeida)







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7 de agosto de 2010

A dança das urnas eletrônicas e o suplício da votação


Na eleição de 2008, esperei seis horas para registrar meu voto. O problema não foi a extensão da fila. Leia o texto abaixo e entenda o absurdo.


“Ninguém costura remendo de pano novo em roupa velha; porque o remendo novo tira parte da roupa velha, e fica maior a rotura”. (Marcos, 2.21). Essa passagem bíblica tem total relação com a concepção de modernidade no Brasil.

Há uma propaganda maciça de que o sistema de urna eletrônica é bastante moderno e praticamente infalível. Entretanto, estão colocando remendo novo em tecido velho. Isto é, o que adianta ter um sistema tão avançado atuando num contexto extremamente atrasado? Para que fazer uso de tecnologia de ponta, quando as mentes e a educação dos que comandam esse sistema não progridem?

Ontem, fui exercer meu “direito obrigatório” de cidadão. No entanto, permaneci quase seis horas na fila. Motivo: urnas com defeito na minha seção.

A primeira estava em boas condições. Mas, aproximadamente uma hora e meia depois, parou de funcionar. A partir daí, iniciou-se uma saga de urnas quebradas, que iam e viam. No total foram 8 (isso mesmo, oito, VIII, eight, ocho, huit, ********) urnas que não serviam para nada.

Houve protesto na fila – obviamente. Formou-se tumulto. Mesários foram ameaçados e quase agredidos fisicamente. A polícia apareceu; a imprensa também.

Ao perceber que não tinha alternativa, o TRE decidiu, quase 6 horas depois, que o voto seria manual, ou seja, por meio do papel.

Não vimos técnicos em informática aparecerem para verificar se o defeito era realmente nas urnas. Não testemunhamos a presença de eletricistas para observarem se o problema era na fiação elétrica do recinto. O TRE decidiu muito tarde substituir as urnas pelas cédulas. Foram muitos os remendos velhos costurados sobre o tecido novo do sistema de votação mais avançado do mundo.

Indubitavelmente, se eu não tivesse a obrigação de votar, deixaria aquela fila na primeira meia hora. Não iria estragar meu domingo. Atitude que a maioria daqueles eleitores também tomaria.


Texto escrito e publicado em 06 de outubro de 2008, sob o títuloPor que o voto é obrigatório no Brasil, parte II


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6 de agosto de 2010

O Diálogo do Retorno


Tonico Benites, índio e doutor em antropologia, diz que “para os guaranis, a conversa é um encontro entre almas. Se você fala alto, assusta a alma do outro”. Essa forma de considerar o diálogo é inerente não apenas a esta etnia indígena, mas ao ser humano em geral.


A diferença é que os índios vivenciam isso no seu cotidiano. Já os integrantes da civilização branca, corrompem o diálogo por não mais utilizá-lo nas suas relações interpessoais, ou por usá-lo conforme os próprios interesses.

Esse é um dos motivos que levaram a humanidade a adoecer. Não há mais diálogos, falta o encontro entre almas.



Amigos, após minha ausência necessária, a volta também se fez imprescindível. Afinal, blogar é um hábito (saudável) difícil de deixar. Mas meu retorno veio com algumas mudanças: continuarei acompanhando as atualizações dos blogs-amigos com o prazer de sempre; entretanto, não poderia comentar com a mesma frequência de antes. A outra mudança diz respeito aos selos, memes e afins; será inviável – pelo menos por ora – repassar os que tenho recebido ultimamente e os que, por ventura, receberei.


Aproveito para agradecer a todos que, durante meu afastamento, entraram em contato comigo expressando preocupação. Obrigado pelo carinho.

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