25 de fevereiro de 2009

Blogueiros de Carne e Osso


Numa carta manuscrita é possível perceber um sentimento incomum no remetente. Isso pode ser identificado pelas linhas quase imperceptivelmente tortas ou por uma palavra com leves borrões provocados, talvez, por uma lágrima derramada.


Obviamente, é impossível ter tal percepção em blogs. Entretanto, quem costuma ler com frequência textos de um blogueiro em particular, perceberá quando seu dia está ruim em termos emocionais. É possível observar isso, por exemplo, em um adjetivo triste que se intrometeu em um parágrafo de contexto exclusivamente cômico. Um leitor poderia dizer: “Mas ele está utilizando o recurso da ironia; está brincando com as palavras”. E outro, especularia: “É uma incoerência textual da qual qualquer escritor é vítima. Mas bem que ele poderia ter identificado essa falha durante a revisão”.

Esses são apenas leitores esporádicos. Os assíduos logo perceberão que por trás de uma palavra de poucas letras pode conter a tristeza de alguém que tem em seu blog um pouco de bálsamo para amenizar uma dor. Afinal, nós, blogueiros, também somos humanos. Somos gente de carne e osso.
Continue Lendo

20 de fevereiro de 2009

Filosofando com meu cachorro

Sentei-me na poltrona confortavelmente para ler um livro sobre filosofia. Meu cachorro seguiu-me até que se acomodou no chão e encostou o focinho em meu braço. Ele estava reivindicando carinho. Como não lhe dei importância, deitou e aquietou-se.

A leitura era tão exultante que às vezes eu a interrompia e tecia alguns comentários para meu cachorro. Quando o primeiro capítulo terminou, peguei-me fazendo uma verdadeira explanação. Só percebi que estava falando com um animal, quando ele latiu.

Senti-me um louco por causa disso. Porém pensei: “Mas meu Menino não é qualquer cachorro. Ele é muito inteligente; só falta falar”.

Menino (esse é o nome dele) latiu outra vez; daí, definitivamente, conformei-me que meu cachorro não compreendera nada do que eu havia dito.

A partir dessa triste constatação, fui tomado por um sentimento de compaixão por Menino. Mesmo sabendo que ele não entenderia palavra alguma do que eu ia dizer, falei-lhe: “Pôxa, Menino! Tenho tanta pena de você. Você perde muito por não saber ler, ou pelo menos falar”.

Meu cachorro inclinou a cabeça para o lado, tentando entender a razão da minha fisionomia triste e da minha voz embargada.

Continuei: “A gente poderia estar agora discutindo filosofia ou discorrendo sobre os contos de Machado de Assis. Sua situação é triste, meu amigo: você é um cachorro. Você nasceu cachorro”.

De repente, Menino ouviu outra voz além da minha. Era meu irmão, chamando-o para ir ao parque brincar. Meu cachorro levantou-se rapidamente e saiu correndo pela sala. Entretanto, no meio do caminho, ele parou, voltou a cabeça para trás, me olhou e expressou-se com um curto mas altissonante latido. Agora, era eu que tentava decifrar a linguagem do meu cachorro: “Acho que te entendi, Menino, você quer que eu vá com você, né? Seus olhos parecem dizer que você está com pena de mim, por eu não poder desfrutar das mesmas coisas que você”.

Assim eu desisti de sentir pena de Menino. E ele deixou de ter compaixão por mim e foi ao parque. Eu continuei minha leitura.
Continue Lendo

17 de fevereiro de 2009

“A Montanha Encantada” – Blogagem Coletiva

Hoje é o dia da Blogagem Coletiva “O Livro da Minha Vida”. A proposta foi lançada por Vanessa, do blog Fio de Ariadne em 25.01.2009.

A ideia é que os participantes escrevam na presente data uma postagem sobre o livro que marcou suas vidas.

Quanto a mim, tive prazer em ler quase todos os livros que chegaram às minhas mãos (inclusive os acadêmicos). Portanto, selecionar o melhor é tarefa um pouco complexa, pois qualquer obra livresca é capaz de mudar algo definitiva e positivamente em nós. Entretanto, sempre há um que – além de ter essa característica – parece que faz parte de nós. E, no meu caso, esse livro é “A Montanha Encanta”.


É um clássico da literatura infantil que figura entre minhas obras de graduação, de pós-graduação, de filosofia, de romances e de outros gêneros. Mas ele está ali, num lugar especial.

Li a primeira vez, aos 10 anos. Naquela época, eu já era apaixonado pela leitura. Mas, sem exagero, “A Montanha Encantada” arrebatou-me os sentidos, devido ao mistério que o envolvia.

O livro traz a narrativa de um grupo de garotos que passam as férias na fazenda dos padrinhos. Certa vez, perceberam que o pico da montanha mais alta dos arredores brilhava bastante. Eles, assim como os adultos, ficaram curiosos e passaram a fazer divagações sobre o que seria aquilo. Pararam de falar e resolveram fazer uma caravana até lá.

Durante a subida – que durou dias – coisas misteriosas foram acontecendo, sinalizando, assim, o que lhes esperavam dentro da montanha.

Essa expectativa criada pelos personagens até chegar à montanha, aguçou minha curiosidade. E tal curiosidade permitiu que eu me apossasse da história, sendo – ao mesmo tempo – leitor, autor e mais um dos personagens.

Assim, eu passava dia e noite dando minha versão para a trama. A partir de uma cena, eu criava outra; ou da fala de um personagem acrescentava novas frases.

Como se vê, “A Montanha Encantada” contribuiu de modo considerável para meu gosto pela leitura e meu prazer pela escrita.

Cheguei a relê-lo umas duas vezes, mas ainda no período da infância. No entanto, a sua marca permanece até hoje. E é justamente por isso que eu o considero “O Livro da Minha Vida”.

“A Montanha Encantada” foi escrita por Maria José Dupré e é uma publicação da Editora Ática.
Continue Lendo

11 de fevereiro de 2009

Há um tempo determinado para cada situação

A expectativa de vida vem aumentando consideravelmente. Apesar disso, as pessoas estão antecipando ciclos, como se tantos anos de existência ainda fossem insuficientes.


O custo dessa antecipação é alto. Por exemplo, há alguns homens que são tão afoitos para adquirir músculos rapidamente – e sem esforço – que recorrem aos anabolizantes. Pouco tempo depois de fazerem uso de tais drogas, esses “marombeiros” começam a sentir as consequências, como infertilidade, males no fígado e no coração.

Outro exemplo são as adolescentes. Atualmente, muitas delas – apesar de várias campanhas educativas – estão engravidando. Como seus corpos ainda não se desenvolveram o suficiente para gerar outro ser, elas podem contrair doenças como anemia e hipertensão. Além disso, estão suscetíveis a um parto complicado e prematuro.

Logo, para cada situação, a natureza reservou um tempo determinado. Quando ele sofre interferência, os efeitos são nefastos e, muitas vezes, irreversíveis.
Continue Lendo

10 de fevereiro de 2009

Artigo tumultua a Morfologia, Parte Final

Foi num desses encontros que um vocábulo de personalidade não identificável (de tão contaminado que estava) deu a seguinte declaração:

“A Morfologia – assim como toda a Gramática – não existe por si só. São necessárias bocas e mãos humanas para que ela ganhe realidade concreta”.


Na outra ponta do auditório, LINDA emendou o raciocínio:

“Entendi o que você quis dizer: na utilização real das classes de palavras, elas só exercem a função que o usuário da língua achar conveniente para determinada situação de comunicação. Isso significa que o Artigo não é todo poderoso como imagina ser”.

Quando LINDA acabou de falar, o Artigo adentrou o auditório e disse arrogantemente:

“Vocês são um bando de classes gramaticais falidas e contaminadas. E isso é definitivo; não tem mais como mudar. Esse discurso que vocês estão proferindo, não irá servir para nada”.

Naquele momento, corajosamente, uma palavra representante da classe dos verbos ficou cara a cara com o Artigo e falou-lhe:

“Senhor Artigo, o que essa palavra acabou de falar é a pura verdade. Nossa cidade é democrática. Aqui, os cidadãos são avaliados de maneira igual. Todas as funções desenvolvidas pelas classes de palavras são valorizadas. Não existe função maior ou menor. É justamente por isso que os humanos conseguem se comunicar: por causa da harmonia entre as palavras".

Quando o representante do verbo finalizou seu discurso, todas as palavras do auditório o aplaudiram de pé. O Artigo amoleceu o coração. Chorou bastante. E prometeu, arrependido, nunca mais causar aquele tumulto na Gramática.


Escrevi esse conto para aplicar nas aulas introdutórias de Morfologia e Análise Sintática. Os resultados têm sido satisfatórios e surpreendentes, visto que após a aplicação desse texto e a respectiva discussão, os alunos têm conseguido compreender melhor os referidos assuntos.
Continue Lendo

8 de fevereiro de 2009

Artigo Tumultua a Morfologia, Parte I

A Morfologia, um bairro nobre da Cidade da Gramática, estava em pânico. Por suas ruas e praças havia uma grande correria. As vias de saídas da cidade chegaram a ficar congestionadas, pois o fluxo de veículos que tentava fugir era intenso. Nunca se vira isso em terras gramaticais.

O causador do tumulto foi o Artigo. Ele estava mordendo outras classes de palavras e as transformando em substantivos.


O Senhor NÃO, um ex-advérbio, ficou desolado. Conversando com um amigo, ele desabafou: “Eu era um respeitável e feliz advérbio. Desenvolvia muito bem minha função sintática. Eu intensificava substantivos, adjetivos e até mesmo outros advérbios. Mas agora apenas visto roupas de advérbio, pois o sangue que corre em minhas veias é de um substantivo. Jamais pensei que isso fosse acontecer comigo”.

Os termos pertencentes à classe dos adjetivos também chegaram a ser contaminados. Com o episódio, muitos deles se esconderam nos locais mais sujos, fétidos e inabitados da cidade. Sentiam-se desonrados e não queriam ser vistos naquele estado. LINDO e LINDA (casal de adjetivos tão citado para exaltar a beleza da existência) estavam jogados sobre a calçada enlameada, como bêbados.

Nem a classe dos verbos escapou desse mal. Conhecidos pela sua capacidade de transformar simples frases em orações, eles também foram substantivados. Apesar disso, ex-verbos como AMAR, VENDER e PARTIR, muito usados como parâmetros das três conjugações, organizaram diversos grupos de discussão. Essas reuniões aconteciam no auditório do bairro e tinham como propósito encontrar uma solução contra aquela pandemia.
Continue Lendo

4 de fevereiro de 2009

Chapeuzinho Vermelho, versão fashion-fatal

Após desfilar para uma badalada grife de roupas, Chapeuzinho Vermelho dirigiu seu carro conversível numa pista que corta uma área moribunda da Mata Atlântica. Ela iria visitar a Vovó que estava em repouso, após se submeter a mais uma lipoaspiração e a quinta cirurgia plástica no rosto.


No meio do caminho, Chapeuzinho parou o carro bruscamente para não bater no tronco de árvore à sua frente. Repentinamente, saindo da mata, apareceu o Lobo Mau.

– Para onde você está indo, garota? Por um acaso vai levar doces para vovozinha? – perguntou o falante animal.

– Você acha que sou mulher de presentear as pessoas com simples docinhos? – disse Chapeuzinho, enquanto retocava o batom. – Além disso, minha avó está em repouso pós-cirúrgico, não pode ingerir glicose. Estou levando uns CDs de rock que ela adora.

O Lobo queria os doces, mas como Chapeuzinho não tinha, ele resolveu roubar o carro mesmo. Entretanto, quando deu o primeiro passo, Chapeuzinho gritou, enquanto apontava um três oitão:

– Te conheço de longas datas, Senhor Lobo. Nem pense em me roubar. Meu carro tem rastreador GPS; qualquer lugar para onde você for, será localizado e preso.

O Lobo, triste, falou:

– O que será de mim? Minhas presas se modernizaram. Os Três Porquinhos abriram uma construtora. E agora Chapeuzinho Vermelho virou modelo internacional...

– Não apenas isso, companheiro. Além de ser top model, me elegi vereadora.

– De que partido?

– Com Vermelho no sobrenome o que você acha?

Após dizer isso, Chapeuzinho Vermelho seguiu viagem em seu possante enfeitado com uma imensa estrela na lateral.
Continue Lendo

Blogs Indispensáveis

Membros

Creative Commons License
O Blog Ponderantes está licenciado sob uma licença Creative Commons.

© Ponderantes 2008-2012 Todos os Direitos Reservados | Início |Créditos

Voltar ao TOPO