10 de novembro de 2009

Professor e Aluno: transferência


Após a aula, o professor está saindo da sala, quando um aluno o chama:

− Professor, espere, eu não pedi sua bênção hoje.
− Deus te abençoe, Lucas... Você não se importa com seus colegas pegando no seu pé, quando me pede a bênção?


− Não ligo, não. Eu acho que eles queriam fazer o mesmo, mas ficam com vergonha. Eu sou corajoso.
− Convencido!!!
− O senhor é um cara muito legal.
− Obrigado, Lucas. Mas vocês são ótimos alunos. Fico satisfeito em dar aula nessa turma, que tem alunos tão dedicados, como você. Mas não vá se achando o tal só porque te elogiei...
− Oxe, professor, não relaxo com o senhor. Sua aula é a que eu mais gosto... Professor, amanhã é meu aniversário. Vou fazer catorze anos.
− Eu sei. Você está me lembrando disso há duas semanas. Vou te dar os parabéns amanhã. Senão perde a graça... Vai ter bolo?
− Minha mãe quer fazer uma festinha e convidar meus amigos.
− E seu pai?
− Meu pai o quê?
− Ele está animado para sua festa amanhã?
− Eu não tenho pai.
− Héin?!
− Ele morreu.
− Você fala “morreu” com tanta raiva! Nunca vi ninguém informar a morte de alguém querido do jeito que você falou... Lucas... Lucas, olha pra mim; seu pai morreu mesmo?
− Morreu não, mas é como se tivesse morrido. Ele mora em uma cidade aqui perto, mas só veio me ver uma vez, desde que eu nasci.
− Que coisa, Lucas...
− Eu queria ter um pai de verdade. Um pai assim, como o senhor.


Essa é uma história real. O nome “Lucas” é fictício para preservar a verdadeira identidade do aluno. (Texto de Valdeir Almeida)


Imagem: Stock photo

26 comentários

jamesp. 10 de novembro de 2009 09:46  

Ótimo texto.Já conheci muitos Lucas dando aula.E às vezes é muito difícil mesmo crescer sem uma figura paterna com quem se identificar.Um abraço.

Pâmela Marques 10 de novembro de 2009 10:00  

Que belo, Valdeir.
Deveras esse texto me tocou, deixando-me sem palavras. Eu sou evangelizadora infantil e é tão bom a gente sentir o afeto que elas nos dão.
Sou apaixonada por crianças.

Lindo, lindo.

Vanessa 10 de novembro de 2009 10:21  

Valdeir, isso é tão triste, não é mesmo. Filhos são bençãos mas tem tanta gente que não se dá conta disso e semeia tristeza junto com a prole.

Abraço

Neto 10 de novembro de 2009 14:45  

Valdeir!

No debate que tivemos sobre consumo consciente também falamos nisso. Pais apressados, que querem viver uma vida de 'aparencias' e cheia de superficialidades entram nessa correria pelo consumo desenfreado e acabam negligenciando o bem maior: a educação dos menores em casa.

A mídia capitalista, óbvio, aproveita para banalizar as coisas e tornar as 'momentos verdadeiros' (que deveria existir em família) em coisas insignificantes, e muitos pais iludidos seguem essa onda.

São esses tipos de pais que transferem aos professores a responsabilidade que é deles: de educar, criar e cuidar seus filhos. Filhos criados nesse ambiente de desequilibrio familiar se tornarão crianças traumatizadas no futuro e propensas a cometerem erros constantes mesmo após adultos. Para mim, a escola até pode ser uma extensão da família, mas os professores não podem e nem devem, sob hipotese alguma, fazer pelos pais algo que é dever e obrigação moral deles. Não tem nenhum cabimento isso, pois só quem irá sofrer são essas crianças.

Um absurdo.

brasildobem 10 de novembro de 2009 15:25  

Como educadora que sou e ex-dona de escolas, tive alguns Lucas que emocionaram muito tambem como esse menino e nós, professores e educadores que somos, muitas vezes somos vistos como substitutos. Por um lado é bom, mas por outro não é legal, porque não dá para misturar os papéis, o que podemos fazer é ensinar valores além das questões do ensino que é inerente a nossa profissão.
Grande abraço,
Janeisa

Alma inquieta 10 de novembro de 2009 15:34  

Olá Valdeir!

Parabéns pelo relato que publicou e que me faz derramar lágrimas!

Deve ser muito triste ser órfão de pai vivo!

Que vergonha..., esse pai pode até ser um homem, mas um Homem jamais e gente muito menos!

E que lindo é ouvir isto de um aluno!

Um beijo Valdeir!

Juliano 10 de novembro de 2009 19:24  

Eu ia postar, sobre isso essa semana. Ja até tenho um texto pronto, sobre a desvalorização de pais. Me emocionei com o final da história de Lucas. Mas é bom que pelo menos ele, enxergue a figura de um pai, em um professor.

Abraços Valdeir.

Lugirão 10 de novembro de 2009 19:33  

Eu apesar de não ser professora, já me deparei com Lucas, marias e tantos na mesma situação, deveria ser proibido aos pais abandonarem seus filhos...muda totalmente a vida deles e na maioria das vezes para pior...

Weslley M. Almeida 10 de novembro de 2009 20:24  

Infelizmente, esta é uma realidade muito comum... De mães solteiras que criam seus filhos sem o apoio paterno.
Na escola, deve-se observar isso com mais frequência e de perto... E o professor, é desafiado a dar apoio moral e sentimental - diante de tantas dificuldades que este já enfrenta... Mas isso também é ser Educador.

Elisa 10 de novembro de 2009 20:39  

Boa noite, Prof. Valdeir!

Aqui em minha escola, a maior parte de meus alunos são de famílias pobres carentes, e muitos deles não tem o pai - ou porque faleceu ou porque deixou de cuidar dos filhos após a separação da mãe. Vivemos numa luta. Somos responsáveis é verdade, para formar esses meninos e propiciar à eles uma condição melhor de vida no futuro com base na educação, e que, no futuro, eles irão procurar essa condição.

Volta e meia batemos de frente com as mães deles - e até entendemos suas razões, pois são pessoas sem nenhum apoio social.

No última semana, uma de nossas professoras pediu aos alunos que fizessem um texto falando sobre suas vidas em família. Um deles nos deu um relato que deixou a todas emocionadas. Ele escreveu de seu sofrimento em família com uma riqueza de detalhes que nos deixou perplexas. E ainda pôs o título no texto assim: "A Dor de Não Poder Chorar".

Por aí o senhor imagina o resto...

HSLO 10 de novembro de 2009 21:53  

Eu já fui esse aluno. Alguns professores perguntavam sobre o meu pai e eu respondia da mesma forma. O meu pai só me reconheceu como filho aos 19 anos de idade, após dois anos ele realmente morreu de leucemia. Já contei essa história em meu blog, no dia dos pais.
O tempo que passei ao lado do meu pai, não foi o suficiente para ele recuperar o tempo perdido em ter me reconhecido.

Belíssima postagem amigo.


abraços


Hugo

E.Suruba 10 de novembro de 2009 22:44  

nO Japão o imperador não se curva pra ninguém, apenas pro professor, porque até mesmo um imperador tem de passar pela mão de uma professor

Wanderley Elian Lima 11 de novembro de 2009 18:57  

Pois é Valdeir, infelizmente em nossa profissão a todo momento deparados com histórias semelhantes e até piores, por isto determinados alunos se fixam tanto em um professor é uma forma se suprir uma carência.
Forte a braço

Marise von 11 de novembro de 2009 20:31  

Valdeir,

Penso que a maioria dos alunos se espelha no professor. Sempre gostei dos meus professores, "eu queoria ser igual a eles, quando crescesse".
No momento em que estamos vivendo, o professor é visto e considerado como um pai amigo ( que faz muita falta hoje - amigo de verdade, aquele que fala as verdades).
Abraços,
Marise.

Vagner Lopez 11 de novembro de 2009 22:51  

Belíssimo!!!
Lembro da figura do meu pai. Ele não era muito presente, só vinha me ver no final de ano e em alguns aniversários. O mais chato disso tudo é que não deu pra aprender coisas com ele. Bom, aprendi uma coisa: Na minha vez, não serei um pai ausente na vida do meu filho.


Um grande baraço. Paz.

Unknown man 12 de novembro de 2009 07:16  

Valdeir,.
Muito bom!!! E emocionante!!!
Para você ver que o Professor é o educador por excelencia, que substitui onde ,não precisaria, que é no lar.

Parabéns, Sr. Educador!!!

Um grande abraço,
Uman

Sandra 12 de novembro de 2009 10:48  

BOM DIA!
VIM DEIXAR UM SELO BEM ESPECIAL PARA VC.
TE ESPERO NESTE ENDEREÇO.
http://sandraandrade7.blogspot.com/

VAMOS LUTAR PELA CAUSA EDUCACIONAL.
COM CARINHO
SANDRA

marcelo dalla 12 de novembro de 2009 18:11  

Excelente texto, meu amigo. Faz a gente refletir sobre a responsabilidade de um professor...
E veja: também estou dando aulas agora. Também sou professor!!! :)))
grande abraço

Reflexo d Alma 12 de novembro de 2009 19:13  

Ei!
Sou de um tempo assim,
tanto da parte do
aluno quanto da parte do professor...
abandonei a missão de lecionar
que tanto amava, no dia que senti que havia
mudado tudo
e um menino de 8 anos ,apos maltratar o colega
de classe que era especial me desacatou e a escola o
protegeu e me expos...
Desencantei nesse dia de trabalhar lecionando,
mas não deixei de amar essa linda relação
entre professor e aluno.
Vou passear mais por seu blog.
Lindo espaço, lindo texto.
Bjins entre sonhos e delírios

"Política sem medo" 13 de novembro de 2009 12:36  

Lindo texto Valdeir. Bom que voce tem inspiracao para colocar em palavras aquilo que acontece no dia a dia. Isso faz com que vejamos as coisas verdadeiramente valiosas que os alunos nos transmitem e que retribuimos com amor. Parabens!

Jeanne 13 de novembro de 2009 23:50  

O professor quando é bom e tem empatia, vira um ídolo e muitos alunos o tomam como referência...
Sou evangelizadora, e na ultima reunião falamos sobre isto, eles nos trazem os problemas que acontecem em casa, mas orientamos para que tudo seja resolvido com os pais mesmo, através de conselhos.Não podemos assumir esta responsabilidade.
É muito triste assistir a situações como esta.
Beijos

Vagner Lopez 14 de novembro de 2009 12:47  

Hey, meu amigo,
Passando pra desejar um ótimo final de semana.

Fica com Deus. Abraço.

Daniel Savio 15 de novembro de 2009 19:59  

Agora eu entendi a transferência, mas sempre há pessoas que no tocam, que nos ensinam, mesmo que não tenham uma educação formal...

Fique com Deus, menino Valdeir.
Um abraço.

Arquimedes Diniz 17 de novembro de 2009 09:38  

A relação professor aluno é sempre conflitante porque são dois mundos opostos que convivem diariamente no mesmo espaço. Sobre transferencia penso que em qualquer relação pode-se haver transferencia e quando acontece ela deixa um quê de fantasioso, na realidade é uma fantasia criada pela pessoa que pretende querer aquele objeto que no inconsciente não ficou bem resolvido. A transferência só ocorre porque desejos algo que não poderemos ter, e esse desejo de ter os outros é a falácia de qualquer relação. Não importando se aluno ou professor.
Inté...
Obrigado pelo texto!

MOMENTOBRASILCOM.COM 21 de novembro de 2009 09:45  

Olá VALDEIR: Parabéns p/blog. Há um premio p/ vc.Passe p/lá. Abrçs. Roy Lacerda.

O bEM viVER 21 de novembro de 2009 20:02  

Colega,

Essa história retrata grande porcentagem de nossos alunos e alunas.

Me recordei inclusive de textos, em que deixam explícito essa raiva, mas que no fundo eles (os que o pai abandonam) têm vontade que a história fosse diferente.

Bjs,

Lena

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