30 de outubro de 2009

Amigo Secreto na Roça


O amigo secreto foi antecipado para o São João. A idealizadora dessa sandice foi Dolores. Mas ninguém ousava contrariá-la, pois seria vítima de suas ardilosas tramas.

À mesa, durante o jantar, os familiares conversavam e comiam. Dolores era a mais comilona; seu prato transbordava de tão cheio. João, porém, não conseguia engolir aquela hipocrisia servida no banquete:


– Vocês anteciparam o Amigo Secreto! – desabafou João – Não esperaram o Natal chegar para representar uma harmonia que nunca existiu. Vocês trocam confetes agora, mas ao cruzarem aquele portão, voltam a falar uns dos outros pelas costas.

Após o desabafo de João, Dolores esbravejou, com a boca entupida de comida e segurando o prato gordo:

– Colocando as mangas de fora, João? Será que sua revolta não é comigo? Admita: você não aceita que eu seja a pessoa mais inteligente da família.

Os familiares sentiram-se ofendidos com essa fala de Dolores e chamaram-na de mercenária. Após isso, houve um bate-boca generalizado. Assim, o amigo secreto junino transformou-se num tribunal onde todos eram juízes e réus.

Enquanto batiam boca, os familiares – um a um – iam jogando os presentes na fogueira sem ao menos serem entregues aos seus destinatários. Os presentes foram queimados juntamente com as velhas falsas verdades.

Enquanto isso, João estava fora de cena, assistindo àquele espetáculo de camarote. Mas como viu que a lavagem de roupa suja iria adentrar a madrugada, ele decidiu ir embora. Ao atravessar o portão, deu a um velho conhecido o presente que comprara. O amigo recebeu agradecido e falou:

– Você bebeu, meu amigo? Pra ter coragem de enfrentar Dolores só mesmo tomando muito quentão. Quando chegar em casa, tome uma ducha de água fria pra amenizar a ressaca.

– Meu amigo – declarou João –, eu não estou bêbado. E não preciso de banho neste momento; minha alma já está lavada. O que eu mais quero agora é dormir. Hoje, terei o melhor sono da minha vida.


Este é um texto fictício. Qualquer semelhança com nomes ou acontecimentos reais terá sido mera coincidência.


Imagem: Stock photo

15 comentários

Daniel Savio 30 de outubro de 2009 20:32  

E no final das contas, valeu mais o que ele planejou do que ter ganhado um falso presente...

Fique com Deus, menino Valdeir.
Um abraço.

Weslley 30 de outubro de 2009 22:16  

Leitura fluída e crítica certeira... Parabéns, Val.
A hipocrisia deve ser lançada (como aqueles presentes - que pode ser usado como metáfora)na fogueira, cujas chamas são acesas pelo produto inflamável chamado SINCERIDADE.
Abraços!

Rafael Lopes 31 de outubro de 2009 12:02  

E ai rapaz, tudo certo??
quanto tempo heim.

Bem passando para desejar ótimo fds
e bom feriado por ae

abraço

Janeisa Tomás 31 de outubro de 2009 13:26  

Pelo visto, ninguém ali teve tato, os dois foram hipócritas: João e Dolores. O primeiro por lavar a roupa suja propositalmente e a segunda por aceitar a provocação e "se achar" a tal da família. Troca de presentes só são válidas quando forem genuínas nas intenções.
Bjs.
Janeisa

E.Suruba 31 de outubro de 2009 14:32  

amigo secreto sempre sai rezenha

Wanderley Elian Lima 31 de outubro de 2009 15:23  

É o texto pode ser fictício, mas a situação cabe em vários lugares.
Abração

Marise von 31 de outubro de 2009 17:04  

Valdeir,

Família é família, essa ninguém escolher, é preciso saber e aprender a conviver.
Mas, amigos, esses nós escolhemos....na verdade não é uma escolha, são afinidades, situações que nos levam a grandes amizades.
O ser humano é imprevisível, principalmente quando as coisas ou os acontecimentos não acontecem conforme o planejado.
Saí de perto...
Um excelente fim de semana.
Abraços,
Marise.

Jeanne 31 de outubro de 2009 17:59  

a situação é ficticia, mas já aconteceu pelo menos uma vez na maioria das familias,rsrsrs...
Ótimo texto, bem elaborado e interessante de ler.
Beijos

HSLO 31 de outubro de 2009 19:05  

Legal;;;;


amigo te desejo um ótimo final de semana.


abraços


Hugo

Silvana Araújo 1 de novembro de 2009 09:29  

Olá Valdeir.
É impossével passar por aqui e não sair com alguma reflexão na cabeça.
Seu modo de escrever e expor as idéias é fascinante.
Esse ultimo texto, "Amigo secreto na roça", exemplifica bem isso.Foi de uma sutileza e ao mesmo tempo firmeza incríveis.
Parabéns.
Obrigada por visitar meu espaço.
Tenha uma ótima semana.

Roberto Hyra 2 de novembro de 2009 20:53  

Professor Valdeir!

A Janeisa disse algo de que concordo: "Troca de presentes só são válidas quando forem genuínas nas intenções".

Acredito que é por aí. Porém, foi bem inteligente a metáfora.

P>S. Com um pouco de pressa, pois estava ocupado, respondi seu e-mail hoje. Muito obrigado pela atenção e, abraços.

alexandre 4 de novembro de 2009 13:33  

Prezado
Parabéns pelo blog!
Abs
Alexandre Taleb
Consultor de Imagem/Personal Stylist
Visite meu blog: http://ataleb.wordpress.com/

Vagner Lopez 5 de novembro de 2009 00:16  

Faaaala Valdeir!!!

Fogo na hipocrisia. Belíssimo texto.

Sobre seu comentário em emu último post, me deu vontade de ir pra debaixo da mesa, sair correndo.Mas nessas situações acabamos por ficar paralizados.

Grande abraço meu amigo. Ótima quinta.

jamesp. 20 de maio de 2010 11:55  

Gostei muitíssimo.Não conhecia esse seu talento!Parabéns,meu amigo.Um grande abraço.

Mary Miranda 26 de junho de 2011 22:25  

Valdeir, meu querido!

Penso que todo o silêncio do mundo, por mais valioso que seja('Silence is gold'), pode substituir uma verdade na hora certa...
O desabafo do João, aproveitando a ocasião oportuna, foi de extrema vitalidade, que simplesmente ADOREI!
Família é uma instituição formada forçosamente (ninguém escolhe onde vai nascer), mas é por espontaneidade e amor que deve continuar existir!...

Bela crônica!

Pena não tê-la conhecido na época que você a lançou; nunca, porém, é tarde para prestigiar um bom trabalho!

Beijos,
Mary:)

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