22 de junho de 2011

Esvaziando as Gavetas



Alguns objetos sobre a estante são banidos a cada reforma da casa. Seus moradores justificam: é preciso harmonizar a decoração com as novas formas e cores do ambiente.

E para onde vão os objetos renegados? Há quem os coloque nas gavetas, já abarrotadas com os adereços da reforma anterior. Isso significa que não é feita uma seleção. Não se verifica o que pode ser doado, aproveitado em outro cômodo ou jogado fora.

As pessoas agem dessa forma, porque se apegam a coisas que não lhe são mais aproveitáveis, nem voltarão a ser. Desse modo, sobrecarregam os compartimentos dos móveis com entulhos sentimentais.

Outro motivo dos acúmulos inúteis é o medo de entrar em contato com velhos abjetos. Esvaziar as gavetas significa confrontar lembranças passadas, tanto as boas que alegraram um momento limitado, quanto as más que... melhor esquecer!

De qualquer maneira, é necessário esvaziar as gavetas. Desfazer-se do que elas guardavam. Desapegar-se do passado sofredor ou nostálgico-depressivo. E viver apenas o que é visível na estante, neste instante.



Os fatos desagradáveis não se apagam, quando os objetos saem de cena. Mas seus efeitos são amenizados ao rompermos emocionalmente com o passado.


(Texto de Valdeir Almeida)


Imagem: stock.xchng

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5 de junho de 2011

O pecado como instrumento de manipulação


Preâmbulo
O objetivo desta postagem não é tentar negar a existência do pecado, mas demonstrar o uso que determinadas religiões fazem dele para oprimirem e manipularem seus fiéis. Portanto, sugestão aos religiosos fundamentalistas: leiam o post desde o início do primeiro parágrafo até o ponto final do texto, antes de tecerem qualquer comentário depreciativo.

Introdução
Grande parte das religiões cria conceitos próprios de pecado; em seguida, transforma-o em sistema de valores vislumbrando ser seguido por toda a sociedade laica. Entretanto, tais valores só têm sentido no ambiente crédulo específico e não possuem relação alguma com a ética na acepção verdadeira: aquela necessária para a convivência social harmônica.

Pecado não é sinônimo de erro

Pecado e erro não são, necessariamente, dois atos sinônimos. O pecado constitui um componente do cenário religioso (sobretudo o que plagia o nome de Cristo) e, muitas vezes, redunda em falácia: líderes de igrejas suntuosas criam as listas de pecados; nelas, porém, não consta o de receber dinheiro alheio, ou seja, de comercializar a fé. Também não se inclui a perseguição ostensiva que eles impetram contra outras religiões, formas de pensamento e estilos de vida.

O erro, por sua vez, opera-se num ambiente real e social. Sua correção não passa pelo crivo da espiritualidade tacanha, mas por processos educativos. E quando há necessidade de punição, em vez de um líder sacerdotal anunciar o veredicto, aplicam-se leis emanadas da Constituição e aplicáveis a todos os cidadãos, independentemente de crenças. O erro, portanto, está relacionado ao desvio de valores genuinamente morais.

Quando um ato é pecado e erro
Quando o pecado e a falha moral na esfera social são coincidentes, a Igreja deixa de tratá-lo com o costumeiro estardalhaço, além de mencioná-lo com menos frequência. Isso é justificável: todo pecado deve ser abordado e combatido apenas e originalmente pela religião, como uma marca ou símbolo.

O passo seguinte é torná-lo conhecido pelos incrédulos, de tal modo que, ao ser citado, o associem à religião que o criou. Desse modo, não seria interessante para a Igreja compartilhar seu “pecado de estimação” com outras manifestações presentes na sociedade. A franquia religiosa não aceita “quebra de exclusividade”, não divide sua glória com ninguém.

Por exemplo, determinadas correntes religiosas proíbem taxativamente o consumo de bebida alcoólica pelos seus fiéis. Entretanto, a referência a esse pecado é, estritamente, pelo viés da perda da salvação.

De fato, a sociedade apresenta uma conotação de erro quanto à bebida alcoólica, mas apenas quando o consumo for excedente. Ou seja, recomenda-se evitar o excesso, visto que o álcool em demasia causa vício e outros males – entretanto, ressalte-se, apenas em demasia.



Muitas vezes, um erro grave não é considerado pecado pela religião

É necessário lembrar que um determinado ato considerado erro grave para a convivência social não é tido como pecado (nem erro) por muitas igrejas.

São vários os exemplos dessa idiossincrasia, mas um dos mais contundentes está na maneira menosprezada com que tais crenças tratam a figura feminina: sempre submissa à autoridade masculina. O homem é considerado a “cabeça do casal”. Portanto, a mulher só deve manifestar sua vontade, se houver a prévia permissão do marido (ou namorado). Logo, o diálogo é abortado e a relação que se opera é a de senhor e serva. A palavra masculina é a prevalecente; a autonomia feminina, silenciada.

Embora seja um absurdo, isso não seria um erro? Ou, para usar a mesma linguagem de alguns religiosos, não seria pecado subjugar a mulher?

Relação Culpa e Pecado
Líderes de certas igrejas, erroneamente designadas de cristãs, têm parte de seu rebanho conquistado pelo mecanismo da culpa. O processo de conversão ocorre da seguinte maneira: o indivíduo que adoeceu, desempregou-se ou perdeu um ente querido está emocionalmente fragilizado e, por consequência, vulnerável. É convidado a ir à igreja. Lá, ele escuta que a doença, a demissão e a morte são resultado do seu distanciamento de Deus e do pecado gerado por este afastamento. Logo, é imprescindível que ele estabeleça o encontro com o divino através – obviamente – do espaço eclesiástico.

A partir desse ritual de iniciação, é instalada a culpa que fará parte da prática religiosa do indivíduo, enquanto professar aquele credo. Se ele cometer qualquer um dos pecados estipulados pela cartilha da Igreja, será castigado por Deus e perderá a salvação da alma. Eis aí uma maneira estratégica de manter os fiéis nos quadros de congregados e não reduzir o rechonchudo número das ofertas.

Conclusão

O respeito aos dogmas religiosos é direito assegurado constitucionalmente. Contudo, não se devem utilizar tais dogmas como princípios sociais, a exemplo do que ocorre ao se institucionalizar a figura do pecado como sinônimo de erro universal.

É muito perigoso quando delegamos a terceiros a escolha do que é certo ou errado, sobretudo quando esses conceitos estão sob o manto da religiosidade. Ao agirmos dessa forma, a nossa consciência deixa de nos pertence, passa a ser de outras pessoas que têm intenções maliciosas e destrutivas.  

(Texto de Valdeir Almeida)

Imagens: stock.xchng

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