19 de abril de 2011

A Escola do Pé de Caju


Marianinha e seus colegas aprenderam a ler debaixo do cajueiro, na roça. É que a escola onde estudavam desabou. E o que sobrou foi aquela frondosa árvore.

Enquanto a professora ensinava, as crianças sofriam com o incômodo de sentar no chão, com o sol que conseguia passar por entre as folhas e com as picadas das formigas. Mas quanto a esses insetos, Marianinha tinha uma reação oposta: ela observava como eles eram organizados, principalmente quando, enfileirados, carregavam pedacinhos de folhas.

“Professora, quando é que a gente vai aprender a escrever a palavra formiga?”, perguntou Marianinha. A professora, entusiasmada com o interesse da aluna, ensinou no mesmo instante, à turma inteira. Depois, todos pegaram o caju direto do pé para se alimentar (não havia merenda escolar). Marianinha também comeu, e quis matar a fome das formigas, mas a professora explicou-lhe que os insetos sabem armazenar sua própria comida instintivamente.

Por fim, após um ano e meio, o governo reergueu a escola. Os alunos voltaram à sala de aula. Marianinha foi a única a se entristecer, pois teria que deixar o cajueiro. Ela queira continuar a observar o cotidiano das formigas.

Ainda assim, Marianinha foi aluna aplicada. Venceu todas as dificuldades que tentavam impedi-la de continuar estudando. Hoje, é bióloga renomada e está concluindo o Doutorado. (Texto de Valdeir Almeida)


O texto acima é fictício, mas representa a realidade de muitas escolas públicas brasileiras, que sofrem com o descaso dos governantes. Os professores, guerreiros e mal-pagos, precisam converter árvores em sala de aula, para que as crianças continuem a estudar.

As crianças possuem a natural capacidade de aprendizagem. Entretanto, desmotivam-se diante do desprezo do poder público que não as valoriza e as relega à própria sorte. Tal atitude (ou falta de atitude) é totalmente contrária à Constituição, que elenca a educação entre os direitos sociais (Art. 6º), e determina que ela seja dada gratuitamente, de forma regular (Art. 208, § 1º e § 2º).

De fato, casos de superação como o de Marianinha também ocorrem, mas não são comuns. Aliás, o que tem sido corriqueiro são políticos brasileiros usarem essas exceções para se eximirem da responsabilidade de oferecer a educação digna prevista constitucionalmente. Eles, às vezes citando a si mesmos como exemplos, afirmam que é possível vencer na vida estudando em escolas públicas problemáticas, bastando, para isso, ter força de vontade e perseverança.

Precisamos deixar de votar em políticos que transformam a educação em ladainha de palanque. E cobrar, dos já eleitos, políticas públicas que valorizem as instituições de ensino, para que as dificuldades deixem de ser regra. (Texto de Valdeir Almeida)


Imagens: stock.xchng

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