25 de março de 2011

O Valor do Abraço, Amplexo da Criação

Amplexo da Criação



Percebam o abraço: um bom abraço.

Como os corações se aproximam, os rostos; o calor um doutro,
um noutro.

Reverberação cutânea, respiração respirada, toque anímico,
enlaçamento carne-alma.

Quando Deus criou os seres, a cada um abraçou, e deu-lhes o
sopro da vida, bem de pertinho
(E assim foram

os primeiros

seis dias...)

Poema de Weslley M. Almeida (Le-Tranças)



O Abraço é uma necessidade humana. É o encontro entre uma alma e suas semelhantes. Tem como resultado a sensação de refúgio, supressão da solidão. É uma manifestação tão sublime, e ao mesmo tempo tão imprescindível, que as palavras não surgem para descrevê-la. Mas as palavras – magistrais, diga-se de passagem – não faltam para Weslley ao falar desse assunto. Na poesia Amplexo da Criação, ele parece traduzir o que todos nós sentimos e pensamos a respeito do abraço, mas não conseguimos verbalizar.

Weslley inicia o poema com uma espécie de convite – ou seria conclamação? – para que seus leitores “percebam o abraço”, e enfatiza: “um bom abraço”. Afinal, o abraço autêntico não é o que se usam apenas as mãos em vez dos braços (o limitado e insosso tapinha nas costas) nem a saudação banalizada Um abraço, tchau. O amplexo verdadeiro é aquele em que os “corações se aproximam, os rostos; o calor [humano]um doutro”.

O termo amplexo – embora graficamente cause estranheza – é tão-somente o sinônimo de abraço. Sua origem etimológica está no latim amplexus, palavra formada a partir da junção do sufixo ambi (ao redor) com plectere (dobrar, entrelaçar). Entretanto, a licença “poético-semântico-etimológica” me permite ir além e dizer que amplexo nos remete à amplitude, visto que abraçar traz grandes benefícios psicológicos e emocionais; manifesta-se em diversas ocasiões; e está presente em todas as formas de relacionamento.

Está comprovado que crianças não abraçadas tornam-se adultos com graves problemas emocionais, como carência extrema, baixa autoestima e dificuldades nos relacionamentos. E o remédio contra tais males é justamente suprir a alma (“toque anímico”) com aquilo que lhe faltou na infância: o abraço acolhedor, capaz de “aproximar corações”.

Outra característica “ampla” do abraço é o fato de ele ser sempre o protagonista em várias situações. É a ele que recorremos para demonstrar felicidade na comemoração de uma conquista ou na celebração de uma data importante. É esse calor humano que utilizamos para consolar quem sofreu alguma perda. Além disso, através do abraço manifestamos alegria por ter reencontrado pessoas que são importantes para nós (mesmo quando tal reencontro é cotidiano e diuturno).

Por fim, o abraço é intrínseco a todos os relacionamentos interpessoais. Através dele, o ser humano lembra que é essencialmente social e, portanto, não está condicionado a viver na solidão. Logo, o abraço se manifesta, por exemplo, entre mestres e alunos. Entre pais/mães e filhos – mesmo quando estes já são adultos. Entre amigos, independentemente do gênero (coitado do machão metido a besta que diz que abraçar outro homem compromete a masculinidade; é uma expressão eivada de preconceito e que revela insegurança sexual, carência e dificuldade de lidar com o próprio afeto). Entre atletas que não se importam com o suor do companheiro; o que vale é celebrar a vitória através de gritos e abraços efusivos. E, obviamente, entre os enamorados, num interpenetrante entrelaçar sensorial e corporal.

A alma, quase sempre, tem dificuldade de recorrer ao universo das palavras para expressar o que sente ou de comunicar-se com outras almas. Essa função, muitas vezes, cabe ao poeta: ele escuta as vozes inaudíveis da essência humana, em seguida as verbaliza, como fez Weslley. Por isso, não é exagero afirmar que os leitores, de norte a sul, são abraçados pelo poeta através dos versos dele. E quando tais versos tratam do abraço, parece haver uma comunicação direta com quem os lê, pois o amplexo, uma das mais belas criações divinas, é uma forma de conexão imprescindível para o ser humano. Bem aventurado aqueles que não se privam das oportunidades de receber/dar um abraço, um bom abraço.



P.S.: Como visto, a poesia de Weslley não apenas verbalizou minha visão a respeito do abraço, mas também inspirou-me a produzir este post. Visitem o blog dele. O título é Le-Tranças, onde as palavras se entrelaçam, se perdem umas nas outras para encontrarem novos sentidos, como o abraço.

(Texto de Valdeir Almeida)


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22 de março de 2011

A Semântica da Amizade


A palavra amigo encerra sua acepção em si mesma. Se um adjetivo a acompanha, é apenas para situá-la no contexto, como neste exemplo: “Fulano é um ótimo amigo, mas meu melhor amigo é Beltrano”.

Para compreendermos o que foi dito, tomemos outro termo concernente a relacionamentos interpessoais: primo. Essa palavra não tem sentido “categórico”. Existem primos que se tratam com cordialidade e lisura; mas há os que sempre agem desonestamente. Como se vê, em algumas situações, tal palavra carece de um determinante para complementar-lhe o sentido.

Isso ocorre, porque há vocábulos cujo nível de significado denotativo é muito elevado. Soma-se a isso o fato de terem valor exclusivamente positivo ou integralmente negativo. O substantivo amigo apresenta alto nível denotativo e valor apenas positivo. Por essa razão, na sentença mau amigo os vocábulos se excluem mutuamente. Afinal, mau é um adjetivo negativo; amigo só tem sentido positivo.

Por outro lado, amigo é daquela espécie de palavras em que a redundância é benéfica, não-condenável. Se alguém é amigo, é porque é bom para o outro (do contrário, seria um não-amigo ou inimigo). Mas, nesse caso, vale a pena o pleonasmo. (Texto de Valdeir Almeida)




Por que redundar?

Pleonasmo entre amigos serve para lembrar que a amizade independe de religião, etnia, raça, classe social, nível educacional, gênero, condição sexual e outras barreiras. Basta haver identificação, afinidade, respeito mútuo.

Infelizmente, há quem se prive da companhia de pessoas positivamente especiais em virtude de teorias sem fundamento e do preconceito daninho.


Imagem: stock.xchng



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