6 de setembro de 2011

A Tentação d’A Carne: doce veneno


Lenita era mulher de personalidade forte. Não costumava se entregar facilmente, nem mesmo ao sentimento. Entretanto, nos últimos dias, percebia nutrir um amor erótico por Barbosa. Mas não queria dar o braço a torcer. Na manhã em que o desejo surgiu mais intenso, ela foi à floresta praticar seu esporte favorito: caçar animais.


Naquele dia, porém, a presa mais vulnerável era a própria Lenita. Ela mirava o pássaro, mas distraía-se entre os pensamentos que a conduziam a Barbosa. Por isso, não percebeu a aproximação de uma cascavel, e acabou sendo picada no pé.

Por sorte, Barbosa, o “predador” de quem Lenita fugia desesperadamente, apareceu. Tocou suavemente o pé da caçadora, encostou os lábios, sugou o veneno. Em seguida, disse:

– Agora vou levá-la ao médico; o pior já passou.

Lenita, que já se sentia zonza com a picada do animal, quase perdeu as forças após o toque físico, salivar, lascivo de Barbosa.

– O pior já passou? – pensou ela – Tu sugaste o veneno da cobra, mas colocaste o teu. Agora, o desejo, que me esforcei tanto para resistir, está em minhas entranhas. Quem te irá expelir de mim?


O conto acima foi livremente inspirado neste trecho do romance A Carne:

“Sugando-lhe as feridas pelos aguilhões da cobra, Barbosa retirara um veneno, mas deixara outro. Lenita nunca mais cessara de sentir a sucção morna, demorada, forte, dos lábios de Barbosa em torno às picadas, no peito do pé. (...) Era um formigueiro circular que lhe trepava pelas pernas, que lhe afagava o ventre, que lhe titilava os seios, que lhe comichava os lábios”. (grifo meu).

Logo, utilizei-me da licença poética para criar uma nova narrativa. Experimente fazer isso com os livros de ficção que você gosta de ler. Isso estimula a criatividade, além de ser uma forma de interagir com seus autores favoritos.


Sobre o romance A Carne:

Escrito por Júlio Ribeiro e publicado em 1888, A Carne causou polêmica por abordar temas tabus para a época, como o amor livre e o divórcio. O romance narra a história do amor “marginal” entre Lenita – jovem órfã, solteira, rica e culta – e Barbosa – homem maduro, recém saído de um casamento infeliz.

Imagem: stock.xchng

14 comentários

Esplendor da Criação 5 de setembro de 2011 22:32  

Realmente uma maneira ótima de estimular a criatividade. Hummm, este romance estimulou os seus sentidos... literários! Muito bom. Bj. Ieda.

Marcelo Moraes 5 de setembro de 2011 22:36  

Valdeir, concordo plenamente. A criatividade reina nestes momentos. Já experimentei (ou pelo menos tentei) fazer isso em dois posts do blog, e ambos poemas ( A dor, o ciclo, o amor que foi inspirada na música no final do post, e o Desejos Ocultos. Como eu disse, eu tentei, mas até que gostei do resultado final rsss.

Abraço.

Wanderley Elian Lima 6 de setembro de 2011 06:51  

Olá Valdeir
Agora Lenita estava presa para sempre ao Barbosa. Gostei da adaptação. Criar uma estória baseada em outra deve ser bastante interessante, vou tentar.
Abração

Lau Milesi 6 de setembro de 2011 08:08  

Lindo!!! Viajei até Romeu e Julieta.:) Parabéns pelo talento e pela partilha de ideias.

Um abraço

Cheguei até aqui através do blog "Novas Estações" do amigo Wanderley. Bom Dia!

Eloah 6 de setembro de 2011 17:06  

Parabéns amigo pela criatividade.Muito tempo atrás li o livro " A Carne" e li escondida dos meus pais.Tudo que é proibido tem um sabor bem melhor.Foi a glória. Fizeste-me recordar algo esquecido e bom demais.O tempo não teria sentido se não fossem as lembranças.Amei passar por aqui.Forte abraço, muita luz e muito amor no coração.Eloah

mfc 6 de setembro de 2011 18:27  

Eu cedo à tentação... para não me arrepender depois!

Um conto lindíssimo (seja adaptação ou não).

LISON COSTA 6 de setembro de 2011 20:03  

Saudações!
Amigo VALDEIR:
A sua ideia além de notável nos remete a ter a quase certeza que aí se encontra uma fonte de inspiração. Eu não conheço o romance, mas, a breve descrição e impecável narrativa que você fez já se tem uma noção da riqueza que o autor sabiamente deixou para todos nós.
Esse recurso é nobre. Particularmente me socorro de pequenas deixas em simples comentários, noutras vezes do título de uma matéria ou até mesmo de uma simples palavras motivadora e depois elejo uma lista de palavras dentro do contexto que eu pretendo desenvolver e dou o início ao rascunho. Às vezes demoro muito a produzir algo, meses até, noutras eu faço de um só fôlego e rápido.
Parabéns por mais um Post magistral!
Abraços,
LISON.

Hugo de Oliveira 6 de setembro de 2011 20:37  

Legal sua postagem amigo.
Estava com saudades de passar por aqui.


abraços

Mônica 7 de setembro de 2011 11:58  

Eu não saberia fazer tão bem como voce fez!
Ficou dez vezes mais gostoso!
com carinho Monica

Prof. Adinalzir 7 de setembro de 2011 18:41  

Parabéns pelo ótimo texto, de uma criatividade sem igual!
O Saiba História agradece a sua visita.
Um grande abraço!

Janeisa Tomás 7 de setembro de 2011 21:18  

Parabéns, a sensibilidade criativa é o que vale e o resultado pra mim foi incrível.
Grande abraçoi!

Élys 9 de setembro de 2011 17:15  

Uma adaptação feita por quem sabe colocar as palavras usando bem a sensibilidade.
Um abraço.
Um bom fim de semana.

Anônimo 9 de setembro de 2011 21:18  

Valdeir
Eu também adorei o almoço que minha irmã fez; Ainda fizerma outras coisas no jantar. Mas esqueci de fotografar
Continuo sem acessar do outro jeito
com carinho Monica

LILIANE 13 de setembro de 2011 08:05  

oi Valdeir.
amei o seu texto, ficou excelente.
Sem dizer, que na maioria das vezes os nossos romances desenrolam-se através destas pequenas ajudas que recebemos, né.
ah.... eu fiquei aqui torcendo pela Lenita com o Barbosa, rs

Oh veneninho bom heim?!

Gostei da sua sugestão.

Querido, tenha um dia excelente, viu

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