5 de junho de 2011

O pecado como instrumento de manipulação


Preâmbulo
O objetivo desta postagem não é tentar negar a existência do pecado, mas demonstrar o uso que determinadas religiões fazem dele para oprimirem e manipularem seus fiéis. Portanto, sugestão aos religiosos fundamentalistas: leiam o post desde o início do primeiro parágrafo até o ponto final do texto, antes de tecerem qualquer comentário depreciativo.


Introdução
Grande parte das religiões cria conceitos próprios de pecado; em seguida, transforma-o em sistema de valores vislumbrando ser seguido por toda a sociedade laica. Entretanto, tais valores só têm sentido no ambiente crédulo específico e não possuem relação alguma com a ética na acepção verdadeira: aquela necessária para a convivência social harmônica.

Pecado não é sinônimo de erro

Pecado e erro não são, necessariamente, dois atos sinônimos. O pecado constitui um componente do cenário religioso (sobretudo o que plagia o nome de Cristo) e, muitas vezes, redunda em falácia: líderes de igrejas suntuosas criam as listas de pecados; nelas, porém, não consta o de receber dinheiro alheio, ou seja, de comercializar a fé. Também não se inclui a perseguição ostensiva que eles impetram contra outras religiões, formas de pensamento e estilos de vida.

O erro, por sua vez, opera-se num ambiente real e social. Sua correção não passa pelo crivo da espiritualidade tacanha, mas por processos educativos. E quando há necessidade de punição, em vez de um líder sacerdotal anunciar o veredicto, aplicam-se leis emanadas da Constituição e aplicáveis a todos os cidadãos, independentemente de crenças. O erro, portanto, está relacionado ao desvio de valores genuinamente morais.

Quando um ato é pecado e erro
Quando o pecado e a falha moral na esfera social são coincidentes, a Igreja deixa de tratá-lo com o costumeiro estardalhaço, além de mencioná-lo com menos frequência. Isso é justificável: todo pecado deve ser abordado e combatido apenas e originalmente pela religião, como uma marca ou símbolo.

O passo seguinte é torná-lo conhecido pelos incrédulos, de tal modo que, ao ser citado, o associem à religião que o criou. Desse modo, não seria interessante para a Igreja compartilhar seu “pecado de estimação” com outras manifestações presentes na sociedade. A franquia religiosa não aceita “quebra de exclusividade”, não divide sua glória com ninguém.

Por exemplo, determinadas correntes religiosas proíbem taxativamente o consumo de bebida alcoólica pelos seus fiéis. Entretanto, a referência a esse pecado é, estritamente, pelo viés da perda da salvação.

De fato, a sociedade apresenta uma conotação de erro quanto à bebida alcoólica, mas apenas quando o consumo for excedente. Ou seja, recomenda-se evitar o excesso, visto que o álcool em demasia causa vício e outros males – entretanto, ressalte-se, apenas em demasia.



Muitas vezes, um erro grave não é considerado pecado pela religião

É necessário lembrar que um determinado ato considerado erro grave para a convivência social não é tido como pecado (nem erro) por muitas igrejas.

São vários os exemplos dessa idiossincrasia, mas um dos mais contundentes está na maneira menosprezada com que tais crenças tratam a figura feminina: sempre submissa à autoridade masculina. O homem é considerado a “cabeça do casal”. Portanto, a mulher só deve manifestar sua vontade, se houver a prévia permissão do marido (ou namorado). Logo, o diálogo é abortado e a relação que se opera é a de senhor e serva. A palavra masculina é a prevalecente; a autonomia feminina, silenciada.

Embora seja um absurdo, isso não seria um erro? Ou, para usar a mesma linguagem de alguns religiosos, não seria pecado subjugar a mulher?

Relação Culpa e Pecado
Líderes de certas igrejas, erroneamente designadas de cristãs, têm parte de seu rebanho conquistado pelo mecanismo da culpa. O processo de conversão ocorre da seguinte maneira: o indivíduo que adoeceu, desempregou-se ou perdeu um ente querido está emocionalmente fragilizado e, por consequência, vulnerável. É convidado a ir à igreja. Lá, ele escuta que a doença, a demissão e a morte são resultado do seu distanciamento de Deus e do pecado gerado por este afastamento. Logo, é imprescindível que ele estabeleça o encontro com o divino através – obviamente – do espaço eclesiástico.

A partir desse ritual de iniciação, é instalada a culpa que fará parte da prática religiosa do indivíduo, enquanto professar aquele credo. Se ele cometer qualquer um dos pecados estipulados pela cartilha da Igreja, será castigado por Deus e perderá a salvação da alma. Eis aí uma maneira estratégica de manter os fiéis nos quadros de congregados e não reduzir o rechonchudo número das ofertas.

Conclusão

O respeito aos dogmas religiosos é direito assegurado constitucionalmente. Contudo, não se devem utilizar tais dogmas como princípios sociais, a exemplo do que ocorre ao se institucionalizar a figura do pecado como sinônimo de erro universal.

É muito perigoso quando delegamos a terceiros a escolha do que é certo ou errado, sobretudo quando esses conceitos estão sob o manto da religiosidade. Ao agirmos dessa forma, a nossa consciência deixa de nos pertence, passa a ser de outras pessoas que têm intenções maliciosas e destrutivas.  

(Texto de Valdeir Almeida)

Imagens: stock.xchng

24 comentários

Crista 4 de junho de 2011 19:47  

Ahhhhhhhhh...não calculas como gosto de estar aqui!
Como é bom poder te ler!!!
Que teu final de semana seja como tu esperas que seja!
Um abraço!

Catarina 4 de junho de 2011 19:52  

Um texto muito bem delineado e informativo. Gostei de ler.

Janeisa Tomás 4 de junho de 2011 20:53  

Bem esclarecedor, sobretudo pela ótica da "culpa"por achar que se está pecando. Abraços!

Artes e escritas 4 de junho de 2011 21:53  

O estado laico é o melhor caminho. Tenho os meus conceitos de pecado, que significam: trilhar o caminho do sofrimento (pensamento meu). Os representantes políticos, no entanto, refletem o pensamento da maioria da sociedade e, se os cidadãos pensam de uma determinada maneira, o político acompanha as suas bases eleitorais. Abraço, Yayá.

Hugo de Oliveira 5 de junho de 2011 12:06  

Nunca tinha visto por esse anglo.
Ótima postagem amigo.

abraços
de luz e paz

Edu Lazaro 5 de junho de 2011 12:39  

Esclarecer no mínimo, libertador. Leitura obrigatória!

mfc 5 de junho de 2011 13:44  

Gostei deste texto desmistificador e muito bem escrito!
Um abraço grande.

Mary Miranda 5 de junho de 2011 17:38  

Valdeir, querido e doce amigo!

Você captou algo da minha alma; só pode ser isso...
Talvez se eu fosse escrever a minha opinião sobre as diferenças entre erro e pecado, não fosse tão fiel as minhas ideias como você o fora...
Honestamente, o termo 'pecado' me enoja!
Por que ser 'criminoso' aquele que 'pecou', se o Planeta Terra é apenas um mundo-escola muito do chinfrim, em que um ou dois quais o nosso, esteja no mesmo patamar de inferioridade moral?
Nunca alardeei com veemência meus conceitos religiosos (sou kardecista) por não ver relevância no meu acabamento final enquanto pessoa de caráter.
No entanto, meu querido, sinto urgência de enfoque pessoal: todos erramos e/ou pecamos, mas ninguém é pior que o outro!
'O pior cego é o que não quer ver' e o maior pecador, é aquele que fica monitorando pecados alheios!
Recorro a um adágio muito conhecido: 'Cada um que olhe pro seu próprio rabo'.
Enquanto a 'falha' de outrem for enredo maior que a vitória do seu dia, verei com maus olhos qualquer dedo que me aponte 'pecados'...

Beijos!!!!
Adorei!!!!

Mary:)

Weslley Almeida 5 de junho de 2011 17:57  

Bem lúcido seu texto, Val. Esclarecedor, inclusive. Faz um raio-X nas relações Fé X Igreja X Pecado X Crente.
Faz-nos perceber que o pecado (a culpa) acaba sendo “uma maneira estratégica de manter os fiéis” na lógica de rebanho.
Achei legal o termo “pecado de estimação” rsrsr!
Abraço, meu amigo!

Wanderley Elian Lima 6 de junho de 2011 10:34  

Aplausos. Se eles não criarem o pecado, como poderão vender o perdão?
Abração

Élys 6 de junho de 2011 18:04  

O seu texto tem muita lucidez, pois a maioria das religiões doutrinam achando que as pessoas que a seguem vão aceitar o que dizem sem raciocinar. Isto porém muito acontece.
Ora, o que é o pecado, o erro, se não o que é estabelecido pelo homem , pela sociedade.
Não existe no meu modo de ver o que se chama pecado. Tudo que realizamos, provocará um efeito em maior o menor escala, de acordo com o fato realizado. Não creio poder chamar de pecado um efeito que se tornou ruim, se levarmos em consideração o que diz a Física: Toda causa produz um efeito igual e em sentido contrário. (Em sentido contrário, sendo ruim, prejudica, inclusive a fonte geradora).
São pensamentos meus, apenas.
Um grande abraço.
Élys.

Mônica 6 de junho de 2011 20:45  

Vandeir
Hoje exisate na catequese renovada muito jeito gostoso , divertido mas responsabem para se falar de pecado.
O importante é a criança perceber que pecado existe e que Deus misericordioso nos perdoa.
Na igreja catolica temos os sacerdotes para nos perdoar.
Estou chegando de Santo antonio. Um friozinho gostoso!
com carinho MOnica
Há esqueci de contar Raphael está curado e de alta graças a Deus

Crista 7 de junho de 2011 10:25  

Tens razão...e com esse frio que está aqui no sul, mais a chegada dos Dias dos Namorados...impossível deixar de ser feliz estando um pertinho do outro!!!
Queria estar aí,no teu calor e não aqui no meu frio...rsrsrsrsrs...
Abração,tipo cachecol...longo e macio!

Mônica 8 de junho de 2011 19:44  

Valdeir
Eu vi mesmo que voce falava de politica, mas minha irmã diz que escrevo muita bobagem. Mas escrevo como se voce fosse meu amigo e com os amigos a gente conversa de tudo.
E fiquei feliz contente por ter me respondido tão prontamente.
Eu estou tão atarefada que não consigo. Durmo com as galinhas e acordo cedo para fazer nada, mas estou fazendo ginastica e indo a aulas de computador.
E não consigo visitar meus amigos todo.
O tempo diminuiu ou eu estou mais lenta?
Viu que fico escrevendo asneiras?
Mas é porque já te considero um grande amigo.
com carinho Monica

Miguel 11 de junho de 2011 14:34  


Boa tarde!
"Mas os que esperam no senhor, renovarão as suas forças, subirão com asas como águias, correrão e não se cansarão, caminharão e não se fatigarão." (isaías 40:31)

Desejo que seu fim de semana seja de paz!


http://www.youtube.com/watch?v=Ir6rGNmjRiU

Deus seja contigo.


Blog Yehi Or!

http://www.hajalluz.blogspot.com

Neto 12 de junho de 2011 11:21  

Uma verdadeira aula. Lembrando que, boa parte dos considerados "erros e pecados", fazem parte da cultura de um povo, cujas regiões apresentam distinções em seu entendimento pela própria sociedade.

Aqui, você escreveu com propriedade uma verdade absoluta sobre o que determinadas igrejas fazem com seus fiéis: a utilização do sentimento de culpa como manipulação. A filosofia delas é nesse sentido, e nem sequer passa pela cabeça de algumas pessoas que eles (a igreja e os pastores) estão sendo 'os lobos na pele de um cordeiro' que o Cristo tanto falou existir na Bíblia Sagrada.

Parabéns Valdeir! Demorei a vim aqui na sua casa, mas sei que, quando venho, daqui sempre saio satisfeito com o que encontro e leio. Excelente post.

Abraços

MOISÉS POETA 12 de junho de 2011 19:35  

UAU !

uma postagem e tanto...a politica religiosa é a mais perniciosa!

abraços !

Esplendor da Criação 14 de junho de 2011 19:41  

Se ele cometer qualquer um dos pecados estipulados pela cartilha da Igreja... muito bem colocado seu texto, ao meu ver, entre tantos erros cometidos pelas religiões, este é um dos mais graves. Cada um segue sua cartilha particular, esquecendo que Jesus deixou uma e bem escrita. E Jesus disse: "quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra". Pena que cada um tira suas conclusões e fazem delas suas verdades. Abraços.

Nayara Borato 16 de junho de 2011 22:41  

Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Nayara e cheguei até vc através do Blog Fuga do intelecto. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir um blog do meu amigo Fabrício, que eu acho super interessante, a Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. A Narroterapia está se aprimorando, e com os comentários sinceros podemos nos nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs





Narroterapia:

Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.



Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.

Prof. Adinalzir 18 de junho de 2011 20:46  

Texto muito bom e esclarecedor. Estamos sempre aprendendo por aqui. Um ótimo fim de semana!

junio davidson 21 de junho de 2011 18:56  

Se fosse jornalista, diria que este é um texto digno de um Pulitzer.

Excelente! Sensacional!

Valdeir Almeida 24 de junho de 2011 18:08  

Obrigado, Júnior Davison.

Aníssima Duarte* 30 de setembro de 2012 12:45  

Texto conciso e o melhor, assevera tudo aquilo que eu acredito.

Muito bom, meu amigo, parabéns!

Thiago El-Chami 30 de setembro de 2012 12:55  

É, né vei... seu texto me lembrou a censura daquele moço que, com olhar de carpinteiro, viu nos fariseus 'sepulcros caiados por fora, e podres por dentro', com seus pecados de estimação e suas estimas pecaminosas. Belo texto.

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